Lula rebate Trump e defende retomada de territórios dominados pelo crime no Rio
Presidente criticou classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas e apresentou estratégia integrada entre União, Estado e município para enfrentar o crime organizado
Rovena Rosa/Agência Brasil O presidente Luiz Inácio Lula da Silva rebateu nesta sexta-feira (18) as críticas do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ao enfrentamento das organizações criminosas no Brasil. Durante uma agenda de segurança pública no Rio de Janeiro, Lula defendeu a retomada de territórios sob influência do crime organizado e destacou a integração entre os governos federal, estadual e municipal como parte da estratégia.
A declaração ocorreu durante a apresentação das Ações Integradas para o Enfrentamento ao Crime Organizado, realizada no Complexo da Polícia Rodoviária Federal (PRF), no Rio. A iniciativa reúne diferentes estruturas de segurança para atuar de forma coordenada em áreas consideradas estratégicas.
Lula também voltou a contestar a decisão do governo norte-americano de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas. Em documento enviado ao Congresso dos Estados Unidos em 15 de setembro, Trump afirmou que o governo brasileiro não conseguiu enfrentar as duas organizações, classificadas pelos Estados Unidos como organizações terroristas estrangeiras.
Durante o evento, Lula afirmou que não concorda com a classificação adotada pelo governo norte-americano e diferenciou o conceito de terrorismo utilizado por Trump daquele que, segundo ele, estaria relacionado à disputa pelo poder político.
Na sequência, o presidente brasileiro fez referência ao ex-presidente Jair Bolsonaro e às investigações e decisões judiciais relacionadas à tentativa de golpe de Estado. Lula afirmou, em seu discurso, que Bolsonaro teria participado de uma ação que classificou como terrorismo de Estado e mencionou as investigações sobre um plano que, segundo as autoridades brasileiras, previa ataques contra integrantes da cúpula do governo e do Supremo Tribunal Federal.
A afirmação sobre terrorismo, entretanto, corresponde à interpretação apresentada por Lula durante o discurso. Não se trata de uma classificação jurídica do ex-presidente como terrorista. Em dezembro de 2025, o Supremo Tribunal Federal condenou Bolsonaro a 27 anos e três meses de prisão pelos crimes de organização criminosa armada, tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito, golpe de Estado, dano qualificado e deterioração de patrimônio tombado.
A discussão entre os presidentes ocorre paralelamente a uma nova etapa da política de segurança pública no Rio de Janeiro. Em 3 de setembro, o Ministério da Justiça e Segurança Pública e o governo do estado assinaram dois acordos de cooperação destinados a ampliar a atuação conjunta contra organizações criminosas.
Um dos acordos trata especificamente da reocupação de territórios sob influência do crime organizado. O outro estabelece medidas de proteção para corredores considerados estratégicos no estado.
A estratégia de retomada territorial prevê integração de inteligência, compartilhamento de informações, apoio operacional e ações de inteligência financeira e patrimonial. A proposta também busca atingir atividades econômicas utilizadas por organizações criminosas para financiar e ampliar sua atuação.
O plano não se limita às operações policiais. Segundo o Ministério da Justiça, a proposta prevê a manutenção da presença do poder público nos territórios retomados, com ações relacionadas à segurança, infraestrutura, desenvolvimento social, desenvolvimento econômico e acesso à Justiça.
Outro eixo da iniciativa está concentrado nos corredores logísticos. Entre os pontos considerados prioritários estão a Avenida Brasil, a Linha Vermelha, a Linha Amarela e os acessos ao Porto do Rio de Janeiro e ao Aeroporto Internacional Tom Jobim.
A atuação conjunta também deverá envolver tecnologia e monitoramento, além da integração de informações entre as forças de segurança. O Ministério da Justiça informou que os primeiros planos operacionais integrados começaram a ser estruturados nesta semana, com previsão de atuação coordenada nos corredores considerados prioritários.
A participação municipal completa a estratégia. Durante a agenda desta sexta-feira, foram apresentadas ações envolvendo a estrutura de segurança da Prefeitura do Rio e o compartilhamento de informações de inteligência e monitoramento.
Lula classificou a experiência no Rio como uma referência para testar um novo modelo de integração entre os diferentes níveis de governo. A proposta é avaliar os resultados da atuação conjunta e, a partir deles, verificar a possibilidade de ampliar estratégias semelhantes para outras regiões do país.
A iniciativa ocorre em meio ao aumento das divergências públicas entre os governos brasileiro e norte-americano sobre a classificação das facções criminosas e a forma de enfrentamento ao crime organizado. Enquanto Washington utiliza a classificação de organizações terroristas estrangeiras para o PCC e o Comando Vermelho, o governo brasileiro mantém sua atuação dentro das estruturas previstas na legislação nacional de combate ao crime organizado.
No Rio, a estratégia apresentada nesta sexta-feira coloca como principais objetivos reduzir o controle territorial das organizações criminosas, dificultar sua logística, atingir suas estruturas financeiras e ampliar a presença do Estado nas áreas afetadas.


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