“Hospital planetário” no RS promete cirurgias com ETs e levanta debate sobre fé e ciência
Reportagem de Zero Hora acompanhou atendimentos em Novo Hamburgo, onde um casal afirma canalizar extraterrestres para realizar procedimentos. Não há comprovação científica apresentada que demonstre a eficácia das supostas curas.
Reprodução | Ilustrativo - GHZ Uma proposta incomum de tratamento de saúde está chamando a atenção no Rio Grande do Sul e provocando questionamentos sobre os limites entre fé, espiritualidade e ciência. Em Novo Hamburgo, no Vale do Sinos, o Instituto Klyfon se apresenta como um “hospital planetário”, onde, segundo seus fundadores, seres extraterrestres realizam procedimentos destinados a combater doenças e promover o equilíbrio físico e emocional.
O assunto ganhou repercussão após uma reportagem publicada pelo jornal Zero Hora, por meio do portal GZH, em 9 de outubro. A equipe acompanhou atendimentos no local, ouviu pessoas que procuravam ajuda e investigou as alegações de cura atribuídas aos chamados procedimentos estelares.
O caso chama a atenção não apenas pela proposta incomum, mas principalmente pela lista de doenças que, segundo os responsáveis pelo instituto, poderiam receber algum tipo de intervenção. Entre elas estão câncer, diabetes, Alzheimer, depressão, doenças cardíacas, problemas renais e outras condições que exigem acompanhamento médico.
A pergunta que surge diante desse cenário é inevitável: o que realmente se sabe sobre essas práticas e até onde vai a diferença entre uma experiência espiritual e uma promessa de cura?
Um espaço que afirma receber visitantes de outros planetas
De acordo com a reportagem de Zero Hora, o Instituto Klyfon funciona em uma residência no bairro Rio Branco, em Novo Hamburgo. O espaço foi fundado por Sandro Gabriel de Souza e Patrícia Cristina de Souza, que afirmam receber orientações de seres de outros planetas.
Segundo o casal, a história começou em 2020, quando Patrícia teria sentido um perfume de rosas dentro de casa. Depois desse episódio, Sandro afirma ter começado a receber mensagens que atribui a entidades extraterrestres.
Um dos seres mencionados pelos fundadores é Klyfon, que dá nome ao instituto. Eles também citam Wontal, descrito como um geneticista extraterrestre que participaria das intervenções realizadas no local.
Os responsáveis dizem que o imóvel funciona como uma espécie de portal para a atuação desses seres e afirmam que uma nave-mãe estaria posicionada sobre a residência.
Essas declarações fazem parte das crenças apresentadas pelo casal. A reportagem, porém, não encontrou registros fotográficos ou gravações que comprovassem a presença da suposta nave ou a origem extraterrestre das mensagens.
É importante fazer essa distinção: relatar aquilo em que alguém acredita não significa confirmar que a experiência descrita realmente aconteceu.
Como funcionam as chamadas cirurgias estelares?
Entre os serviços oferecidos pelo Instituto Klyfon estão as chamadas “cirurgias espaciais estelares”. Segundo os fundadores, os procedimentos duram de três a sete minutos e não envolvem cortes no corpo físico.
Sandro afirma que canaliza Wontal durante as sessões. As intervenções, conforme a explicação apresentada pelo instituto, aconteceriam no chamado corpo etérico, com supostas alterações em estruturas biológicas, sem uma cirurgia convencional.
Durante os atendimentos acompanhados pela equipe de Zero Hora, eram utilizados objetos como cristais e dispositivos de luz. O responsável também mencionava conceitos como reprogramação molecular e alterações em substâncias do organismo.
Embora essas explicações utilizem termos associados à biologia e à saúde, a reportagem não apresenta evidências científicas independentes que demonstrem que os procedimentos descritos consigam modificar estruturas celulares ou tratar as doenças anunciadas.
O instituto afirma que os atendimentos devem funcionar como complemento aos tratamentos médicos. Patrícia também declarou que os pacientes devem continuar seguindo as orientações de seus médicos e que mudanças na medicação exigem acompanhamento profissional.
Essa ressalva é importante, mas não comprova a eficácia dos procedimentos oferecidos.
Relatos de melhora não são a mesma coisa que comprovação de cura
A reportagem encontrou pessoas que procuraram o instituto motivadas pela esperança de melhorar a própria saúde ou a de familiares.
Uma das entrevistadas, Fabíola Almeida Rumich, levou a mãe, de 75 anos, para um atendimento. A idosa havia sofrido um AVC hemorrágico e apresentava dificuldades para falar e responder a estímulos após a internação hospitalar.
Fabíola relatou ter percebido uma melhora no estado da mãe nos dias anteriores e decidiu levá-la ao chamado hospital planetário. Em sua avaliação, a experiência foi válida, dentro de suas convicções espirituais.
Outro caso relatado à equipe foi o de uma voluntária que afirmou ter percebido o desaparecimento de um nódulo renal depois de uma sessão de cirurgia estelar. No entanto, ela não apresentou os exames anteriores ou posteriores que permitissem verificar a afirmação.
Esses relatos ajudam a compreender por que algumas pessoas procuram práticas alternativas, especialmente quando enfrentam doenças graves, sofrimento prolongado ou situações que afetam profundamente suas famílias.
Mas existe uma diferença fundamental entre perceber uma melhora após determinado atendimento e comprovar que esse atendimento foi responsável por ela.
Para estabelecer a eficácia de um tratamento, são necessários critérios científicos, avaliação clínica e evidências que permitam verificar os resultados. Um relato individual, por mais sincero que seja, não demonstra sozinho que uma técnica seja capaz de tratar ou curar uma doença.
Há atendimentos gratuitos, sessões pagas e venda de produtos
O Instituto Klyfon oferece diferentes atividades relacionadas à sua proposta espiritual. Segundo a reportagem de Zero Hora, as sessões coletivas de cirurgia estelar são gratuitas, enquanto os atendimentos individuais custam entre R$ 250 e R$ 330.
O espaço também comercializa produtos fitoterápicos, com preços a partir de R$ 27, e oferece cursos, palestras e atividades voltadas ao chamado despertar da consciência.
Entre os produtos mencionados na reportagem está um item chamado “kit câncer”. A existência desse produto, entretanto, não constitui evidência de que ele seja capaz de tratar ou curar a doença.
A comercialização de produtos associados a problemas de saúde merece atenção justamente porque pacientes e familiares podem estar fragilizados e dispostos a tentar diferentes alternativas diante de um diagnóstico difícil.
A reportagem informa que os fundadores justificam a arrecadação com despesas pessoais, manutenção do espaço, aquisição de materiais e viagens relacionadas às atividades. O casal também afirma pretender destinar parte dos recursos à construção de uma nova estrutura para o instituto.
Essas informações ajudam a dimensionar o funcionamento do local, mas não servem, por si mesmas, para comprovar ou descartar a eficácia dos atendimentos.

O que dizem os especialistas em ufologia?
A reportagem também ouviu especialistas que analisam relatos relacionados a supostos contatos com extraterrestres.
O ufólogo Hérnan Mostajo ressaltou que existem relatos históricos de pessoas que atribuem experiências de cura a seres de outros planetas. Ele, porém, destacou que ainda falta uma comprovação científica conclusiva da existência de vida extraterrestre.
Rafael Amorim, também ouvido pela reportagem, afirmou que relatos de canalização precisam ser analisados com cautela. Sem elementos externos que permitam verificar a origem das mensagens, não seria possível determinar se aquilo que alguém afirma receber realmente vem de um extraterrestre.
A discussão exige separar duas questões diferentes. Uma é a possibilidade de existir vida fora da Terra, assunto de interesse científico. Outra é afirmar que seres extraterrestres realizam procedimentos capazes de tratar doenças humanas.
Uma questão não comprova automaticamente a outra. Até o momento, a reportagem não apresenta evidências independentes que confirmem as alegações de intervenções extraterrestres no instituto.
O alerta do Conselho Regional de Medicina
O Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio Grande do Sul (Cremers) também se manifestou sobre o assunto.
Em nota reproduzida por Zero Hora, o conselho afirmou respeitar as manifestações culturais e religiosas e reconheceu que a fé e a espiritualidade podem oferecer acolhimento e conforto durante o adoecimento.
O órgão, entretanto, ressaltou que práticas religiosas, espirituais ou alternativas não substituem a assistência médica e que não há comprovação científica ou critérios capazes de estabelecer a eficácia dessas abordagens para diagnosticar, tratar ou curar doenças.
O Cremers também destacou a importância de procurar avaliação médica diante de sinais e sintomas e advertiu que práticas espirituais não devem substituir, interromper ou atrasar diagnósticos e tratamentos.
A orientação é especialmente relevante em casos de câncer, doenças cardiovasculares, problemas renais, Alzheimer e outras condições que podem exigir acompanhamento contínuo.
Uma pessoa pode manter suas crenças, buscar conforto espiritual e participar de atividades que façam sentido para sua vida. O cuidado necessário está em não confundir esse apoio com um tratamento médico de eficácia comprovada.
E o que esse caso tem a ver com Chapadão do Sul?
Novo Hamburgo fica a mais de 1,6 mil quilômetros por estrada de Chapadão do Sul, em Mato Grosso do Sul. Embora o instituto esteja distante da nossa região, a discussão levantada pelo caso vai além das fronteiras do Rio Grande do Sul.
Quando uma instituição afirma oferecer procedimentos para doenças graves, o assunto deixa de ser apenas uma curiosidade sobre extraterrestres. Passa a envolver também a maneira como pacientes e familiares avaliam promessas de tratamento, interpretam relatos de melhora e decidem em quem confiar quando enfrentam problemas de saúde.
A esperança de encontrar uma solução para uma doença difícil é compreensível. Para quem está sofrendo ou acompanha um familiar doente, qualquer possibilidade de melhora pode ganhar um significado enorme.
É justamente nessas situações que a informação precisa ser apresentada com clareza. A fé pode ter valor pessoal, e experiências individuais merecem ser ouvidas com respeito. Mas alegações de cura precisam ser avaliadas com base em evidências, principalmente quando envolvem doenças que podem trazer riscos graves à vida.
Afinal, é fé, crença ou uma promessa que precisa ser comprovada?
O caso do Instituto Klyfon reúne elementos que costumam despertar reações diferentes. Há quem veja os procedimentos como uma experiência espiritual, quem questione as explicações apresentadas e quem permaneça em dúvida diante dos relatos de pacientes.
O papel do jornalismo não é ridicularizar a fé de ninguém, tampouco transformar declarações extraordinárias em verdades comprovadas. É apresentar o que foi relatado, identificar quem faz cada afirmação e mostrar ao leitor quais evidências existem, quais ainda faltam e quais cuidados precisam ser considerados.
Até aqui, as informações publicadas sobre o chamado hospital planetário documentam a atuação do instituto, as crenças de seus fundadores e os relatos de pessoas que procuram atendimento. Elas não demonstram que extraterrestres estejam realizando cirurgias nem que os procedimentos sejam capazes de curar as doenças anunciadas.
E você, o que pensa sobre esse tipo de prática? Acredita que experiências espirituais podem ajudar as pessoas ou considera que promessas de cura precisam ser vistas com ainda mais cautela? O debate é bem-vindo, desde que seja conduzido com respeito e informação.
Esta reportagem foi produzida com base nas informações publicadas por Zero Hora, no portal GZH, em 9 de outubro de 2026. A matéria original pode ser consultada neste link.


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