Brasil se aproxima dos EUA nas exportações agrícolas
Brasil exportou US$ 169,2 bilhões em produtos do agronegócio em 2025. Com produção de soja, pesquisa agropecuária e novos investimentos em armazenagem, região de Chapadão do Sul participa de uma cadeia que abastece o mercado mundial.
Reprodução | Ilustrativo O Brasil está cada vez mais próximo dos Estados Unidos no comércio internacional de produtos agrícolas. Em 2025, o agronegócio brasileiro registrou US$ 169,2 bilhões em exportações, enquanto os norte-americanos somaram US$ 171,49 bilhões em vendas agrícolas externas, segundo dados do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) e do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA). A diferença aritmética entre os números é de aproximadamente US$ 2,29 bilhões, embora as duas bases utilizem critérios estatísticos que exigem cautela na comparação.
A possibilidade de o Brasil ultrapassar os norte-americanos ganhou destaque internacional após uma análise do jornal britânico Financial Times sobre a perda de espaço da agricultura dos Estados Unidos. Em coluna publicada pelo UOL em 12 de outubro de 2026, o jornalista Nelson de Sá relatou que o jornal projetou a possibilidade de o Brasil terminar o ano à frente dos norte-americanos na disputa agrícola.
O tema interessa diretamente a Mato Grosso do Sul, um dos estados brasileiros com forte participação na produção de soja, milho e carne bovina. Dentro desse cenário, Chapadão do Sul se destaca pela força da agricultura regional, pela presença de instituições voltadas à pesquisa no campo e pelos investimentos em infraestrutura de armazenagem.
Brasil está perto, mas a liderança de 2026 ainda não foi confirmada
Os dados consolidados de 2025 mostram a dimensão da disputa. Segundo o Mapa, as exportações brasileiras do agronegócio cresceram 3% em relação ao ano anterior e alcançaram um recorde histórico de US$ 169,2 bilhões. O setor respondeu por 48,5% de tudo o que o Brasil exportou naquele ano.
Nos Estados Unidos, o USDA registrou US$ 171,49 bilhões em exportações agrícolas em 2025. A diferença entre os resultados é pequena diante do volume movimentado pelos dois países e ajuda a explicar por que o Brasil aparece cada vez mais próximo da liderança entre as grandes potências agrícolas nacionais.
É importante, entretanto, fazer uma distinção. Os números são produzidos por instituições diferentes, com classificações próprias para os produtos considerados agrícolas e agropecuários. Por isso, a diferença de US$ 2,29 bilhões é uma referência aproximada, e não uma comparação metodológica perfeitamente equivalente.
Também existe uma diferença entre a liderança de um país e a de um bloco econômico. Nas estatísticas internacionais do USDA, a União Europeia aparece na primeira posição entre os grandes exportadores agrícolas quando considerada como bloco, seguida pelos Estados Unidos e pelo Brasil em 2025. Assim, uma eventual ultrapassagem brasileira dos norte-americanos não significa, automaticamente, assumir a liderança mundial em todas as classificações.
Os números mais recentes do Brasil, porém, mostram que a disputa continua aberta. Entre janeiro e setembro de 2026, as exportações do agronegócio nacional somaram US$ 133,6 bilhões, valor 5,5% superior ao registrado no mesmo período de 2025, segundo levantamento publicado pela Folha de S.Paulo em 12 de outubro. O resultado mantém o setor em trajetória de crescimento, mas ainda não confirma a liderança anual.
O último trimestre será decisivo. A demanda internacional, os preços das commodities, as condições climáticas e as decisões comerciais dos países compradores podem alterar o resultado final. A própria análise da Folha aponta incertezas envolvendo as compras chinesas de produtos brasileiros, especialmente soja e carne bovina.
Tecnologia transformou o Brasil em potência agrícola
O avanço brasileiro é resultado de um processo construído ao longo de décadas. Pesquisa científica, melhoramento genético, correção dos solos, mecanização, manejo agrícola e desenvolvimento de variedades adaptadas ao clima tropical permitiram ampliar a produção em regiões que antes apresentavam limitações importantes para determinadas culturas.
Um dos exemplos mais conhecidos é a expansão da soja pelo Cerrado. A Embrapa destaca que o investimento em pesquisa possibilitou adaptar a cultura às condições brasileiras, inclusive às regiões de baixas latitudes, abrindo caminho para uma produção em larga escala no Centro-Oeste.
Essa transformação ajudou o Brasil a conquistar espaço em mercados internacionais e a ampliar a oferta de produtos como soja, milho, açúcar, café, algodão e carnes. O país combina grandes áreas produtivas com capacidade tecnológica, conhecimento agronômico e condições para desenvolver diferentes sistemas de cultivo ao longo do ano.
Em diversas áreas do Centro-Oeste, por exemplo, a soja é cultivada na safra principal, seguida pelo milho na segunda safra. Esse aproveitamento da mesma área em períodos diferentes contribui para ampliar a produção e movimentar uma cadeia de fornecedores, transportadores, armazéns e empresas de comercialização.
A competitividade, entretanto, não depende apenas da quantidade produzida. Custos de insumos, disponibilidade de crédito, transporte, armazenagem, acesso a mercados e os efeitos do clima influenciam diretamente o resultado obtido pelos produtores.
China e comércio internacional influenciam a disputa
A China ocupa posição central nessa transformação por ser um dos principais destinos dos produtos agrícolas brasileiros, especialmente soja e carnes.
As mudanças nas relações comerciais entre Pequim e Washington também alteraram os fluxos internacionais de mercadorias. A partir de 2018, as tensões comerciais entre Estados Unidos e China contribuíram para modificar a distribuição das compras de produtos agrícolas, criando oportunidades para fornecedores brasileiros.
O Brasil conseguiu ampliar suas vendas externas e atender a parte dessa demanda. A produção em grande escala, o desenvolvimento tecnológico e a capacidade de fornecer commodities em volumes elevados ajudaram o país a ocupar espaço no mercado internacional.
Esse movimento, contudo, não deve ser interpretado como resultado de um único governo ou de uma única decisão política. A expansão do agronegócio brasileiro reúne avanços científicos acumulados ao longo de décadas, investimentos privados, políticas públicas, infraestrutura e transformações no comércio mundial.
A concentração das vendas em grandes compradores também traz riscos. Se a China reduzir suas importações ou mudar a origem dos produtos que compra, o impacto pode atingir preços, receitas de exportação e decisões de plantio no Brasil.
Por isso, a abertura de novos mercados e a diversificação dos destinos comerciais são importantes para manter a competitividade brasileira no longo prazo.
Mato Grosso do Sul bateu recorde de exportações em 2025
A participação de Mato Grosso do Sul nessa cadeia internacional aparece nos próprios resultados do comércio exterior.
O Estado encerrou 2025 com US$ 10,7 bilhões em exportações totais, recorde histórico e crescimento de 7,51% em relação a 2024, segundo levantamento da Secretaria de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação (Semadesc), baseado nos dados do ComexStat.
A composição das vendas externas mostra a importância combinada do agronegócio e da atividade industrial. A celulose respondeu por 28,98% do total exportado pelo Estado em 2025. A soja representou aproximadamente 22%, enquanto a carne bovina correspondeu a cerca de 17%. Os percentuais se referem à pauta exportadora estadual, e não exclusivamente às exportações agrícolas.
A China foi o principal destino das mercadorias sul-mato-grossenses, com participação de 48,57% no total exportado naquele ano. Essa concentração reforça a importância do mercado asiático para a economia estadual e, ao mesmo tempo, evidencia a necessidade de diversificar os compradores.
O desempenho de Mato Grosso do Sul demonstra como a produção rural e a indústria podem trabalhar de forma complementar. Além de fornecer produtos agrícolas, o Estado possui cadeias industriais que agregam valor às matérias-primas e ampliam a variedade de mercadorias vendidas ao exterior.
É justamente essa combinação que oferece oportunidades de desenvolvimento para as regiões produtoras: não apenas ampliar a colheita, mas também melhorar a estrutura de transporte, conservação, processamento e comercialização dos produtos.
Chapadão do Sul tem participação expressiva na produção de soja
No mapa agrícola estadual, Chapadão do Sul integra uma região de forte presença da soja e de atividades diretamente ligadas à produção de grãos.
Durante a abertura da TecnoAgro 2025, em março daquele ano, o prefeito Walter Schlatter afirmou que a região de Chapadão do Sul era responsável por mais de 16% da produção de soja de Mato Grosso do Sul. A declaração foi registrada em publicação da própria Prefeitura sobre o evento. O percentual deve ser entendido como um dado informado pela administração municipal a respeito da região, e não como uma participação exclusiva do município em toda a produção estadual.
A força da agricultura local vai além das lavouras. A cadeia envolve fornecedores de sementes, fertilizantes e defensivos, empresas de máquinas agrícolas, assistência técnica, transportadores, armazéns, cooperativas e profissionais especializados.
Nesse contexto, a Fundação Chapadão desempenha papel importante na pesquisa e na difusão de tecnologias para o campo. A instituição desenvolve experimentos e atividades voltadas ao aumento da produtividade, ao aperfeiçoamento dos sistemas de cultivo e à sustentabilidade da produção agropecuária. A TecnoAgro, por sua vez, reúne produtores, pesquisadores e empresas para apresentar soluções aplicadas à realidade regional.
A ligação entre ciência e produção ajuda a explicar como regiões do Cerrado se tornaram referências agrícolas. O desenvolvimento de novas variedades, o manejo do solo, a identificação de pragas e doenças e a escolha de práticas adequadas às condições climáticas podem contribuir para melhorar o rendimento das propriedades.
Para Chapadão do Sul, manter essa capacidade de inovação é fundamental para sustentar a competitividade da produção e acompanhar as exigências de compradores nacionais e internacionais.
Investimento de R$ 55 milhões amplia a capacidade de armazenagem
Outro movimento importante para a região é o investimento da Lar Cooperativa Agroindustrial em uma nova unidade de armazenagem em Chapadão do Sul.
Segundo a Prefeitura, o empreendimento recebeu investimento estimado em R$ 55 milhões e tem previsão de iniciar as operações em março de 2027, com recebimento da soja produzida na região. A unidade está sendo implantada às margens da MS-306, na saída para Costa Rica.
O projeto prevê uma primeira etapa com capacidade estática inicial de aproximadamente 40 mil toneladas. Quando concluído, o complexo deverá alcançar capacidade total de cerca de 200.350 toneladas, conforme as informações divulgadas pelo município.
A ampliação da armazenagem é relevante porque permite receber e conservar os grãos em condições adequadas, além de ajudar a organizar o fluxo de transporte durante a colheita. Em regiões de produção concentrada, a infraestrutura disponível influencia os custos operacionais e a capacidade de escoamento da safra.
O investimento também prevê geração de empregos. Durante a construção, a Prefeitura informou que cerca de 90 trabalhadores atuavam na obra. Após o início das operações, a cooperativa deverá manter 25 colaboradores fixos, com possibilidade de ampliar a equipe durante a safra. Esses números são previsões divulgadas pela administração municipal e podem variar conforme o andamento do empreendimento.
A nova estrutura não determina, isoladamente, a posição do Brasil no ranking mundial de exportações. Sua importância está em contribuir para que a produção regional seja recebida, armazenada e comercializada com maior eficiência, fortalecendo uma cadeia que faz parte do abastecimento nacional e internacional.
O desafio agora é transformar produção em desenvolvimento duradouro
A proximidade entre Brasil e Estados Unidos no comércio agrícola abre uma oportunidade para discutir os próximos passos do agronegócio brasileiro.
Produzir grandes volumes é uma vantagem, mas manter a competitividade exige investimento contínuo em pesquisa, logística, armazenagem e qualificação profissional. Também é importante ampliar a industrialização de matérias-primas e diversificar os produtos exportados, buscando gerar mais valor dentro do país.
A sustentabilidade será outro fator decisivo. O uso responsável dos recursos naturais, a conservação do solo, o cumprimento da legislação ambiental e a rastreabilidade da produção são questões cada vez mais importantes para o acesso a mercados internacionais.
Para Mato Grosso do Sul, esses desafios estão ligados à capacidade de ampliar a produção sem perder eficiência e de fortalecer a integração entre propriedades rurais, cooperativas, indústria e infraestrutura logística.
Em Chapadão do Sul, a presença de instituições de pesquisa, o investimento em armazenagem e a força da cadeia da soja representam oportunidades para consolidar a atividade agrícola e estimular a economia local. Os benefícios, entretanto, dependem de como o crescimento será acompanhado por serviços, infraestrutura, empregos e condições adequadas para o setor produtivo.
O resultado da disputa entre Brasil e Estados Unidos ainda precisa ser confirmado pelos números finais de 2026, mas a aproximação já evidencia a dimensão alcançada pelo agronegócio brasileiro.
Caso a ultrapassagem seja confirmada em uma comparação estatística equivalente, será um marco na disputa entre duas das principais potências agrícolas nacionais. Para Mato Grosso do Sul e Chapadão do Sul, a história mostra que a produção regional integra uma cadeia muito maior, com reflexos sobre o comércio exterior, a geração de renda e a posição brasileira no abastecimento mundial de alimentos e matérias-primas.


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