Acidentes de trabalho com entregadores crescem 35% no Brasil
Levantamento aponta mais de 34 mil registros entre 2023 e julho de 2026. Ministério Público do Trabalho alerta para a subnotificação e os riscos enfrentados por motociclistas e ciclistas.
Divulgação O número de acidentes de trabalho envolvendo entregadores motociclistas e ciclistas aumentou no Brasil nos últimos anos. Dados levantados a pedido do Ministério Público do Trabalho (MPT), com informações do Ministério da Saúde, apontam que as notificações passaram de 8.582, em 2023, para 11.579, em 2025, uma alta de aproximadamente 35%.
Entre janeiro de 2023 e julho de 2026, foram registrados mais de 34 mil acidentes relacionados a essas atividades. O levantamento também colocou os entregadores na décima posição entre as ocupações com maior número de notificações no Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan).
A maior parte dos registros envolve profissionais que trabalham com motocicletas. Foram contabilizados 34.004 casos de acidentes entre motofretistas, enquanto 207 notificações envolveram entregadores que utilizam bicicletas.
Para o Ministério Público do Trabalho, os números demonstram a dimensão dos riscos enfrentados por quem realiza entregas nas ruas. O procurador Ilan Fonseca, vice-coordenador nacional de Combate às Fraudes nas Relações de Trabalho, afirmou que o crescimento das ocorrências preocupa tanto pela saúde dos trabalhadores quanto pelas condições em que a atividade é exercida.
Segundo o procurador, a exposição ao trânsito e aos perigos das vias públicas está entre os pontos investigados pelo órgão, que busca compreender como o ambiente de trabalho afeta a integridade física desses profissionais.
Subnotificação dificulta dimensionar o problema
Apesar do volume de ocorrências, o MPT avalia que os registros não representam necessariamente toda a realidade dos acidentes envolvendo entregadores. A informalidade e a ausência de vínculo empregatício direto podem dificultar a comunicação das ocorrências e o acesso aos registros oficiais.
Ilan Fonseca atribui parte desse problema à atuação das plataformas digitais de entrega. De acordo com ele, durante as investigações, o órgão não recebeu informações sobre a comunicação de acidentes ao Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).
Na avaliação do procurador, a falta desses dados prejudica a análise dos benefícios previdenciários e dificulta a elaboração de políticas públicas voltadas à prevenção de acidentes e à proteção dos trabalhadores.
Entidade cobra medidas de proteção
A preocupação também foi destacada por Nonato Alves, presidente da Federação Nacional dos Motociclistas Profissionais (Fenamoto). Ele ressaltou que, além da discussão sobre o reconhecimento de vínculo empregatício entre entregadores e plataformas, é necessário considerar as consequências dos acidentes para a vida dos profissionais.
Alves citou casos de trabalhadores que sofrem sequelas graves, incluindo amputações e paralisias. Ele também mencionou que ações em tramitação no Supremo Tribunal Federal (STF) podem influenciar a discussão sobre as relações de trabalho no setor.
Outro ponto levantado pela federação é a flexibilização de exigências para o exercício da atividade. Segundo Alves, uma medida provisória editada em maio de 2026 retirou requisitos que, na avaliação da entidade, contribuíam para a segurança dos profissionais, como a idade mínima de 21 anos e a obrigatoriedade de curso específico.
A federação afirma que mantém diálogo com o governo para discutir a revisão dessas mudanças e defende medidas que reduzam os riscos enfrentados pelos entregadores.
Associação de aplicativos questiona levantamento
Em manifestação sobre os dados, a Associação Brasileira de Mobilidade e Tecnologia (Amobitec) questionou a metodologia utilizada para relacionar os acidentes à atividade profissional de entregadores que trabalham por aplicativos.
A entidade informou que as três maiores empresas do setor reúnem cerca de 800 mil motociclistas cadastrados. Segundo os números apresentados pela associação, esse contingente equivale a 2,3% da frota nacional de 34 milhões de motocicletas, motonetas e ciclomotores, conforme dados da Secretaria Nacional de Trânsito.
A Amobitec também afirmou que suas associadas tratam a segurança como prioridade e disponibilizam seguro contra acidentes pessoais durante as viagens realizadas pelos trabalhadores.
O levantamento coloca em evidência um desafio que envolve prevenção, registro das ocorrências e proteção social. Enquanto o MPT aponta falhas na comunicação dos acidentes, a associação do setor questiona os critérios utilizados na análise. A dimensão real do problema depende de informações que permitam identificar com precisão as ocorrências e as condições em que esses profissionais trabalham.


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